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TERRA-PÁTRIA
Texto extraído para fins didáticos de
Edgar Morin e Anne Briitte Kern – Editora Sulina - 1995

       A crise universal do futuro
A Europa havia espalhado a fé no progresso pelo planeta inteiro. As sociedades, arrancadas de suas tradições, iluminavam seu devir não mais seguindo a lição do passado, mas indo em direção a um futuro promissor e prometido.  O tempo era um movimento ascensional.  O progresso era identificado com a própria marcha da história humana e impulsionado pelos desenvolvimentos da ciência, da técnica, da razão.  A perda da relação com o passado era substituída, compensada pelo ganho da marcha para o futuro.  A fé moderna no desenvolvimento, no progresso, no futuro havia se espalhado pela Terra inteira.  Essa fé constituía o fundamento comum à ideologia democrático-capitalista ocidental, na qual o progresso prometia bens e bem-estar terrestres, e à ideologia comunista, religião de salvação terrestre, que chegava a prometer o "paraíso socialista".  O progresso esteve em crise por duas vezes na primeira metade do século, na manifestação bárbara das duas guerras mundiais que opuseram e fizeram regredir as nações mais avançadas.  Mas a religião do progresso encontrou o antídoto que exaltou sua fé exatamente onde deveria ter desmoronado.  Os horrores das duas guerras foram considerados como as reações de antigas barbáries, e até mesmo como anúncios apocalípticos de tempos bem-aventurados.  Para os revolucionários, esses horrores provinham das convulsões do capitalismo e do imperialismo, e de modo nenhum colocavam em questão a promessa do progresso.  Para os evolucionistas, essas guerras eram guinadas que não faziam senão suspender por algum tempo a marcha para a frente.  Depois, quando o nazismo e o comunismo stalinista se impuseram, suas características bárbaras foram mascaradas por suas promessas "socialistas" de prosperidade e felicidade.
O pós-guerra de 1945 assiste ao renovar das grandes esperanças progressistas.  Um excelente porvir é restaurado, seja na idéia do futuro radioso prometido pelo comunismo, seja na idéia do futuro apaziguado e próspero prometido pela sociedade industrial.  Em toda parte no terceiro mundo, a idéia de desenvolvimento parece dever trazer um futuro liberado dos piores entraves que pesam sobre a condição humana.
Mas tudo oscila a partir dos anos 1970.
O futuro radioso naufraga: a revolução socialista revela sua face dantesca na URSS, na China, no Vietnã, no Camboja e mesmo em Cuba, por muito tempo considerada como "paraíso socialista" de bolso.  Posteriormente o sistema totalitário implode na URSS e por toda parte se desfaz a fé no futuro "socialista".  No Oeste, a crise cultural de 1968 é seguida em 1973 pelo atolar das economias ocidentais numa fase depressiva de longa duração.  Enfim, no terceiro mundo, os fracassos do desenvolvimento desembocam em regressões, estagnações, fomes, guerras civis/tribais/religiosas.  As balizas rumo ao futuro desapareceram.  Os futurólogos não predizem mais e alguns encerram suas atividades'.  A nave Terra navega na noite e na neblina.
Ao longo da mesma época, o próprio núcleo da fé no progresso - ciência/técnica/indústria - se vê cada vez mais profundamente corroído.  A ciência revela uma ambivalência cada vez mais radical: o domínio da energia nuclear pelas ciências físicas resulta não apenas no progresso humano, mas também no aniquilamento humano; as bombas de Hiroshima e Nagasaki, seguidas pela corrida às armas nucleares das grandes e depois das médias potências, fazem pesar sua ameaça sobre o devir do planeta.  A ambivalência chega à biologia nos anos 1980: o reconhecimento dos genes e dos processos biomoleculares leva às primeiras manipulações genéticas e promete manipulações cerebrais que controlariam e submeteriam os espíritos.

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